A construção de novos caminhos para a vida

Um breve relato acerca dos processos de Teatro e Circo desenvolvidos pelo projeto “Cooperativa de Artistas: Produzindo Caminhos Sustentáveis Para a Vida”

Compreendemos que a formação artística tem antes de tudo o caráter de proporcionar a seus participantes uma reflexão sobre a realidade em que se está inserido, o reconhecimento de sua identidade, de sua história, para a partir de seres apropriados da própria cultura, construir uma arte que expresse seu meio.

Por isto, os cursos desenvolvidos durante o primeiro semestre de 2015 no projeto “Cooperativa de Artistas: Produzindo Caminhos Sustentáveis para a Vida” fizeram uma interessante abordagem para estimular esta percepção através de diferentes eixos.

Abaixo selecionamos alguns relatos do Pedagogo do projeto, Murilo Gaulês, sobre as aulas:

Cooperativa de Artistas

Teatro Jovem- Centro Cultural Arte em Construção

Jovens de 14 a 25 anos

Partindo do trabalho corporal de mudanças no caminhar, os alunos eram convidados a experimentar couraças sociais alterando a sua própria composição corporal. Essas (de)composições fomentavam discussões sobre o papel social de cada uma dessas personas construídas e suas inserções na comunidade local. O afunilamento dessas discussões, devidamente conduzido pelos artistas educadores responsáveis, levou ao tema “aparência”. Discussões sobre o que é belo, sobre o conceito socialmente imposto de beleza e as ranhuras sociais que isto traziam eram colocados em roda, fomentando uma pesquisa desses “arquétipos de beleza” no bairro Cidade Tiradentes. As experimentações culminaram na construção de personagens caricatos que potencializam numa esfera extracotidiana os materiais pesquisados em campo com o grupo. Dessa forma, por meio do exagero, essas personagens evidenciavam um inconsciente coletivo que expunha a ótica do belo pelo olhar dos moradores do bairro e que consequências isso gerava na vida afetiva, social e psicológica de cada um. As materialidades foram transformadas em uma esquete apresentada na mostra de encerramento em formato de processo aberto.

Cooperativa de Artistas

Teatro Infantil- Centro Cultural Arte em Construção

Crianças de 07 à 11 anos

O trabalho começou com exercícios corporais e de sensibilização dos sentidos. As descobertas do decorrer do trabalho foram transpostas em forma de um protocolo artístico: os alunos registravam suas descobertas trazendo materialidades plásticas (desenhos, materiais recicláveis, revistas velhas, etc) que representassem a descoberta do encontro.

A junção destas gerou um “boneco ” como um registro simbólico do trabalho desenvolvido. A primeira questão disparada pelo boneco era a necessidade de dar-lhe um coração. À partir de conversas que verticalizavam as questões sem perder o clima lúdico do jogo, os alunos iam discutindo valores sociais que iam sendo imprimidos no boneco. Cada valor descoberto virava um combinado geral para a turma que o assimilava e protocolava no “coração” do boneco. A segunda questão foi: “Qual o nome do boneco?” Partindo disso, os alunos foram questionados sobre a história de seus próprios nomes, levando-os a pesquisar/relembrar o significado afetivo dos nomes que seus pais atribuíram a cada um. Todas as materialidades foram assimiladas em um roteiro criado em coletivo que foi experimentado na mostra aberta de encerramento. Além de um trabalho de assimilação de valores sociais e de entendimento de trabalho em grupo o processo potencializou questões como a percepção corporal e a articulação de ideias, fomentando a potência criadora de cada criança.

Cooperativa de Artistas

Teatro Jovem- EE Barro Branco II

Jovens de 12 a 14 anos

Exercícios de consciência corporal foram desenvolvidos com muita profundidade com esta turma no 1º semestre. Essas atividades eclodiram na percepção do corpo enquanto espaço a ser ocupado e que também ocupa um espaço (neste caso, a sala de aula). O encontro desses espaços provocou uma reflexão sobre o embate do que esses corpos tinham em comum e de diferente, em fluxo e em choque, trazendo à tona a discussão sobre as impressões que tenho de mim e do outro e o quanto essas impressões sobre o espaço já não estão socialmente dadas. Daí o trabalho se desdobra em um eixo temático comum: o “bullying”. Com este eixo de discussão a corporeidade explorada no processo vai dando forma a personagens do cotidiano destes jovens, que vivem como adolescentes invisíveis, sem olhar dos adultos que são incapazes de ver a grandeza que a opinião do outro decreta na vida de cada um, assim como suas consequências. Todo o roteiro do trabalho e a proposta de encenação foi desenvolvido pelos próprios alunos, tendo as artistas educadoras do processo como provocadoras de materialidades e fomentadoras de reflexões.

Cooperativa de Artistas

Circo infantil- EMEF Mailson Delane

07 à 11 anos

O olhar da criança como ser brincante foi questão de ordem no processo da Escola Maílson. Por meio do brincar a criança aprende, e foi exatamente assim que se configurou a trajetória do processo na turma de circo infantil. Brincando de circo e experimentando diversas modalidades como perna-de-pau, swing, malabares, improvisação de palhaço, introdução a acrobacia entre outros, as crianças iam ampliando seus saberes e nutrindo desejos pelo fazer de circo. Esse espaço também possibilitava a criança um lugar para poder falar de si, para ser ouvida, entendida, apreciada. Um lugar onde todas as suas histórias eram importantes e cabiam no espaço real e lúdico ao simultaneamente. Com extrema delicadeza, os artistas educadores teceram estas brincadeiras em uma colcha de retalhos que se configurou em um pequeno número circense, com esquete de palhaço e apresentações de malabares e equilíbrio. A percepção corporal das crianças e a escuta foram potencialmente e perceptivelmente ampliadas nos alunos comparando o início e o final do processo.

Cooperativa de Artistas